Ruas são salas de estar, não estacionamentos.


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Trânsito a caminho do caos

23 de março de 2008
Gestora da Diretran garante que carros não param por mais de cinco minutos nas vias urbanas.

Faça um teste e marque um compromisso em qualquer parte de Curitiba para onde você precise se deslocar de carro, entre 18 e 19h30. Se você não seguir a máxima do "sair com bastante antecedência" - um daqueles conselhos quase infalíveis em campanhas de orientação de trânsito, mas sempre tão complicados de serem postos em prática -, a probabilidade de atraso é praticamente certa.

A culpa é do trânsito lento. Pelo menos, na nomenclatura utilizada pela Diretran, são dos sintomas desse trânsito lento que padecem os motoristas na capital paranaense. "Temos muitos pontos na cidade em que o tráfego fica complicado, principalmente nos horários de pico, lá por 8 horas e entre 18 e 19h30", diz a gestora de Operação do Trânsito da Diretran, Guacira Civolani, ela mesma uma motorista que sai de carro do Bacacheri (Zona Norte), deixa os filhos na escola no Cajuru (Zona Leste) e o marido no trabalho, no Centro, antes de chegar até a sede da Urbs, no Jardim Botânico (Zona Leste). Com a experiência no volante, Guacira faz coro com uma multidão de condutores ao admitir que o trânsito curitibano ficou ainda mais complicado nesse começo de ano. A gestora, porém, vê um equívoco quando se fala em congestionamentos em Curitiba. Segundo ela, ao contrário do que ocorre em São Paulo, por exemplo, em Curitiba os veículos não ficam parados mais de cinco minutos nas vias urbanas. "O carro anda um pouco e aí pára. Fica parado um pouquinho e volta a andar. No congestionamento, o motorista fica dez, quinze minutos estacionado em um mesmo lugar. Isso só vai ocorrer aqui se tiver um acidente, um carro quebrar", ressalta.

Isso ocorre, segundo ela, por causa do planejamento urbano da cidade. "Não somos dependentes de uma grande via, como ocorre com as marginais em São Paulo", explica. "Determinadas ligações entre bairros podem ser feitas, evitando-se as áreas centrais."

Para o professor Paulo Moraes, do curso de Educação e Gestão de Trânsito e Transporte da PUCPR, a comparação com o caos do trânsito paulista é plausível e importante para a capital paranaense. Em 1995, quando ainda trabalhava na Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) da prefeitura de São Paulo, Moraes tinha arrepios com congestionamentos que batiam na casa dos 70 quilômetros. "Eram nosso terror", lembra. Doze anos depois, as filas de veículos parados na capital paulista aumentaram em mais de três vezes. No último dia 13 de março, foi registrado um novo recorde de lentidão: 221 km de congestionamento na Marginal Tietê, principal corredor viário de São Paulo.

"É um alerta para Curitiba: sem soluções urbanísticas, o trânsito tem uma capacidade única de se deteriorar", diz o professor, que perde no mínimo cinco horas semanais dentro de um automóvel no trajeto entre sua casa, no Bairro Alto, e seus empregos, no Rebouças e no Prado Velho.

Segundo o professor, não há muito mistério por trás da deterioração do trânsito curitibano. Afinal, uma frota de mais de um milhão de veículos circula em uma estrutura urbana semelhante a de dez, quinze anos atrás. "A última grande novidade no planejamento de transportes da cidade foi o Ligeirinho", lembra Moraes. Curitiba tem 1 veículo para cada 1,8 habitante. A maioria desses carros conduz uma, no máximo duas pessoas. "Dificilmente a gente vê mais de duas pessoas em um carro. Não temos a cultura da carona", ressalta Guacira Civolani que aponta um fator extra de complicação: as várias obras realizadas pela prefeitura neste primeiro semestre de 2008. A lista é grande: Linha Verde, Marechal Floriano, Manoel Ribas, Erasto Gaertner, Izaac Ferreira da Cruz, entre outras. Em maior ou menor grau, as obras bloqueiam certo sentido da pista, quando não a via toda, obrigando o motorista a pegar vias paralelas. Em horários de pico, quando os motoristas rumam da casa para o trabalho, ou vice-versa, essa combinação resulta numa maré de luzes de freios acesas. "Lá pelas 8 horas e entre 17 e 19h30 fica tudo complicado demais", conta Pedro Chalus, presidente do Sindicato dos Taxistas de Curitiba e Região Metropolitana. Ele mesmo é um exemplo do desafio lançado lá no início da reportagem. A entrevista que daria à Gazeta do Povo sofreu atraso por causa do trânsito. "É a Avenida das Torres", explica. "Tem um trecho que não anda."

A Avenida das Torres, como é popularmente conhecida a Comendador Franco, tem dois cruzamentos entre os cinco mais movimentados na cidade, segundo a Diretran. No cruzamento com a Coronel Francisco H. Dos Santos são 6.909 veículos que passam pelo trecho por hora, nos períodos de maior trânsito - entre 17 e 19 horas.

A solução é simples: menos carros nas ruas

Menos carros nas ruas. A medida simples foi defendida por todos os especialistas que falaram à Gazeta do Povo sobre como melhorar o trânsito em Curitiba. "O motorista precisa entender que não é vítima do trânsito, ele é o trânsito", diz a gestora de Operação de Trânsito da Diretran, Guacira Civolani.

A idéia tem conduzido o planejamento urbano de Curitiba há pelo menos duas décadas. Abrir mais e mais ruas seria o chamariz para mais e mais carro. "Foi o que ocorreu em São Paulo, que fez viadutos e elevados e o problema continuou", diz o professor Paulo Fernando da Silva Moraes, do Curso de Educação e Gestão de Trânsito e Transporte da PUCPR.

Por esse motivo, o transporte coletivo continua sendo apontado como o grande herói no combate aos engarrafamentos. "A cidade tem faixas exclusiva para ônibus e isso vai continuar, por exemplo, com a Linha Verde", afirma Guacira. "Mas parte desse entendimento tem de vir do próprio cidadão. Ele precisa entender que saindo de casa de ônibus é menos um carro que complica o trânsito."

O exemplo de grandes metrópoles, no entanto, mostra que, geralmente, são necessárias medidas pouco populares para desestimular o transporte individualizado. "A redefinição de horários de entrada e saída de escolas e estabelecimentos comerciais para evitar a concentração de pessoas nas vias em determinados horários de pico é uma alternativa", diz o especialista em Trânsito Marcelo Araújo.

Moraes sugere outras opções. "Dá para aplicar o pedágio urbano, que é a cobrança para se trafegar no centro, a proibição ao estacionamento, que foi colocada em prática em alguns pontos de Curitiba, e o rodízio", diz. "São todas formas de diminuir o número de veículos, mas são todas antipopulares, principalmente se não houver investimento no transporte público."

Quem vive o cotidiano do trânsito também defende maior participação do poder público no dia-a-dia das ruas. "Quando o pessoal do BPTran lidava com os carros, fluia melhor: eles sinalizavam, apitavam e orientavam", opina o presidente do Sindicato dos Taxistas de Curitiba e Região, Pedro Chalus. "Hoje é difícil ver alguém da Diretran fazendo isso."

Para Guacira, a presença física dos agentes não significa necessariamente um trânsito melhor. "Ter lá alguém numa esquina não vai fazer o trânsito melhorar de repente", diz. "Não temos condições de estar em todos os pontos da cidade, mas os agentes da Diretran estão trabalhando e atentos a acidentes e engarrafamentos fora do comum. Essas informações são rapidamente transmitidas pelas emissoras rádios em nossos boletins."

por GUILHERME VOITCH
Gazeta do Povo - Primeira Página

Veja também: Ônibus virou um "mal necessário"

  
 
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